Terra, fogo, mar e ar

Frederico Coelho, 2016

Quando estava em Londres (1969), Hélio Oiticica escreveu no dia 21 de setembro um texto intitulado “Subterrânia”. Um poema-manifesto em que afirma a força do prefixo “sub”, utilizado na época de forma pejorativa a partir da expressão “subdesenvolvido”. Como brasileiro que desenvolvia trabalhos na Europa, Oiticica percebe as contradições de seu “não-lugar” e transforma uma possível fraqueza (a precariedade do subdesenvolvimento) em potência específica da condição brasileira e latino-americana. Estávamos “debaixo da terra”. Nosso underground era, de fato, subterrâneo. O que vale destacar do documento para uma introdução sobre a obra de Cabelo é o trecho final do texto de Oiticica:

sub mergir pelas matas ou nas ondas do mar

sub lime a tua música escondida sob o

sub véu

sub way

Rodrigo Saad, conhecido desde sempre por Cabelo nasceu em Cachoeiro de Itapemirim e cresceu na beira do mar de Copacabana. Foi nos campos do interior do Rio de Janeiro, porém, que teve sua iluminação poética. Durante um período de sua vida, trocou as ondas pelas matas e criou minhocas em um sítio. Segundo o próprio artista, observar o ciclo de transformação das minhocas e a forma orgânica em que processam dejeto em vida “debaixo da terra”, fez com que a ideia de criar aos pedaços a partir do que o mundo oferece fosse incorporada às suas práticas artísticas. Além disso, vemos também em sua obra a prática de reprocessar materiais rejeitados em novas vidas. De certa forma, seu processo criativo traz essa possível marca subterrânea.

Mas sobre essa força “natural” (as minhocas) também se dobra outra força subterrânea da vida. A rua e suas fendas, sua linguagem viva, seus personagens, suas tragédias, também habitam a arte de Cabelo. Artista múltiplo, o submundo deixa marcas em quem conhece de perto seu funcionamento. Olhos e ouvidos atentos fizeram do artista carioca uma voz coletiva de seu tempo. Talvez seja por isso que as artes visuais não bastaram para ele. Cantor, compositor, poeta, performer, seu trabalho é pleno de contaminações e processos experimentais. Ele cria um mundo à parte em que ondas, matas, ruas, músicas, palavras, imagens, luzes e escuridão se atravessam intensamente.

A relação de Cabelo com as artes visuais se principia formalmente através dos cursos do Parque Lage oferecidos na segunda metade dos anos 1980 (sua primeira aula foi cabalisticamente no dia 8/8/1988). Informalmente, já era desenhista e tinha descoberto a poesia na leitura dos versos curtos e desconcertantes de Paulo Leminski. Na vida universitária, ele passa rápido por uma graduação de engenharia e ingressa no curso de comunicação da PUC-Rio. Se não teve empatia com a publicidade e o jornalismo, foi no ambiente dessa universidade que encontrou um grupo de poetas e artistas dispostos a trabalharem coletivamente. Batizado de Boato, o bando de sete poetas aos poucos tornou-se um grupo de performance e um banda bem sucedida no cenário local dos anos 1990.

Desde então, a carreira de músico sempre acompanhou sua trajetória de artista visual. Muitas vezes, elas tornam-se indissociáveis. E é justamente nessa dobra artística que o componente performático tem peso decisivo na trajetória de Cabelo. Sua entrada no meio das artes visuais ocorreu durante um período em que o Rio de Janeiro estava em plena ebulição criativa e renovação geracional. Após uma década movida pelo sucesso da “Geração 80” e pela hegemonia quase opressora da pintura, a performance, a escultura, a volta ao objeto e outras frentes se afirmavam como vetores cada vez mais sólidos entre os novos artistas. A mesma escola do Parque Lage que abrigou a famosa exposição dos anos 1980 (“Como vai você, geração 80?”) tornou-se espaço de encontro e trocas de artistas iniciantes como José Damasceno, Raul Mourão, Tatiana Grinberg, Afonso Tostes, Laura Lima, Ernesto Neto e muitos outros. Nesse período, já tocado pela poesia, Cabelo desenhava com afinco.

Foi nesse “solo” que o ex-criador de minhocas se encontrou com o seu ofício. Além disso, no início dos anos 1990 a cena performática do Rio de Janeiro funcionava intensamente através dos trabalhos que já vinham ocorrendo desde a década anterior com nomes como Marcia X., Alex Hamburguer ou Fausto Fawcett. Muitas iniciativas artísticas passaram a ocupar as ruas da cidade em espaços abandonados pelo poder público e pela população – casos da Lapa, São Cristóvão, Glória e Zona Portuária. Cabelo é um artista que tem esse momento da cidade e de sua arte como adubos primordiais. A rua, o corpo, a música urbana, as linguagens da cultura de massa e da cultura popular, a velocidade do caos e a contemplação delirante do mundo são traços que, desde os seus primeiros trabalhos, são fundamentais. Ele elabora aos poucos um olho no subterrâneo da cidade e do mundo, com os pés fincados na terra e com o corpo surfando no mar. Vida e morte, som e fúria, imagem e destruição, beleza sublime e horror social serão parte de seu vocabulário estético.

Sua primeira exposição foi a coletiva 3D, ainda em 1991. Em 1994, participa de Novos Noventa, importante exposição no Paço Imperial por apresentar nomes de uma mesma geração que, atualmente, têm trajetórias profissionais consolidadas. Como dito mais acima, são artistas em que a pintura e a figuração perdem espaço para um diálogo mais intenso com a produção brasileira dos anos 1970. Novos curadores também surgem e, em meio a uma expansão inicial de um mercado de arte e das necessárias reformulações de políticas públicas e instituições, os anos 1990 produzem uma efervescência que precisa ser estudada com mais cuidado. É justamente nessa geração da qual Cabelo faz parte que encontramos traços determinantes do que viria a ser chamada de arte contemporânea no país.

Em 1996, Cabelo participa da exposição coletiva Antártica Artes com a Folha, cuja curadoria era também formada coletivamente entre Lisette Lagnado, Lorenzo Mami, Stela Teixeira de Barros e Nelson Brissac Peixoto. Ali, exibe pela primeira vez seu trabalho que tornou-se divisor de águas em sua carreira: Cefalópode Heptópode. Em um texto do curador Paulo Reis, lemos uma descrição da obra:

“Em Cefálopode Heptópode (…) Cabelo mostrava já os princípios que norteariam as suas ações pondo um aquário com peixe vivos, fios dentais, chumbos e anzóis, e atores encapuzados e sentados em volta da mesa. Os fios dentais eram costurados nos capuzes à altura dos olhos e tinham anzóis e chumbos nas extremidades que se estendiam até o aquário. Na performance, o artista ateia fogo ao aquário usando óleo de soja e álcool, enquanto deambulava em transe pelo espaço a dizer poemas e frases sobre o estatuto do artista”.

Para o artista, seu trabalho fala sobre a extensão entre os elementos terrestre, aéreo e aquoso. Apesar do trabalho mostrar a estrutura de um polvo, trata-se de um polvo incompleto, pela falta de um dos tentáculos (sete pessoas). Através dos fios dentais (que conduzem e, ao mesmo tempo, atravessam brechas de difícil acesso entre os dentes), o aquário se expande na cabeça dos encapuzados e vice-versa. O jogo de ida e volta entre a cuba, os peixes, os fios, as cabeças, criam combinações aleatórias de duração infinitas. Após a instauração dessa estrutura, o fogo na água rompe os fios e toda a ligação se desfaz pelo elemento destruidor e, simultaneamente, purificador.

Em 1996 Cabelo inaugura na Galeria IBEU sua primeira individual, Cabeça d’Água. Com curadoria de Esther Emilio Carlos, Cabelo segue investigando as brechas entre a natureza marítima e as durações da matéria, aprofundando suas elucubrações instintivas sobre o ser no mundo. Vale ressaltar aqui que muitos dos elementos utilizados em seus primeiros anos de trabalho e nos anos restantes – Cavalos marinhos (presentes em obras como Molotov e Névoa, ambas de 1996), polvos, tubarões, anzóis, peixes, areia, títulos ligadas ao mar (“La mer”, “marujo mascate”, “Naufrágio”, “Atlantic tides”) – nos lembram que o artista cresce e vive na beira da praia. Apesar de sua imersão subterrânea em uma fazenda de minhocas ter sido decisiva para o artista entender sua predileção pelo reuso criativo das coisas e por trabalhar com camadas de objetos dissonantes, o mar e seu elemento aquoso instável não podem ser esquecidos como traço marcante de sua poesia. Como o próprio disse em Portugal em 2010, seguimos “um naufrágio que não se acaba”.

Em 1997, Cabelo é convidado para expor na X Documenta de Kassel. O convite por parte da curadora Catherine David se deu a partir de uma visita ao ateliê do artista visual Tunga. Foi lá que ela pode ver de perto uma instalação que Cabelo havia feito em um pequeno casebre abandonado no terreno ao lado. A instalação espontânea garantiu o convite para que ele exibisse na Alemanha uma polêmica performance de seu Cefalópode Heptópode. Acusado por alguns espectadores de agressão aos peixes, Cabelo não hesitou em apontar a seletividade do sofrimento alheio em relação à animais e, principalmente, às pessoas. Vale registrar paralelamente a esse episódio a amizade que se construiu ao longo dos anos entre Cabelo e Tunga, uma de suas grandes referências. Após conhecê-lo em uma palestra do próprio sobre seu trabalho no Parque Lage (o vídeo Nervo de Prata, de 1987, é decisivo em sua formação, segundo o próprio artista), Cabelo passa a frequentar seu ateliê e a amizade se transformou ao longo de tempo em ações como a performance Em busca da Hipersimetria (2002).

Ainda em 1997, Cabelo apresenta Atlantic Tides em uma coletiva na Whitechapel Gallery. Apesar desse precoce espaço internacional (ao longo da carreira ainda expôs em Barcelona, Houston, Lisboa, Minneapolis, Miami, Bolonha, Cidade do México, Cuenca, Bordeaux), nesse período a verve poética e musical de sua trajetória estava em plena abertura e ebulição. O Boato, coletivo de poetas do qual fazia parte desde início dos anos 1990, tinha se transformado em banda e lançava seu primeiro disco em 1998. Eram carreiras paralelas que se potencializavam e permitiam a Cabelo uma rara versatilidade poética e performática. O palco, o corpo, a palavra e a música foram incorporados cada vez mais em suas práticas. Foi um período intenso de performances, como Contaminação (1998), Caixa Preta (1999), Guru Guru Black Power, os mortos não morrem (1999) e Pastor das Sombras (2000). Essa última, repetida ainda em outras roupagens em 2001 e 2003, além de outras, teve a parceria (Guru Guru) ou participação (Pastor das Sombras) de Jarbas Lopes, amigo de Cabelo e artista fundamental dessa geração. São trabalhos que desencadeiam situações e personagens na fronteira entre a morte, o absurdo e o caos sensorial das cidades. A vida urbana e seus absurdos alimentavam Cabelo em performances que juntava artistas, meninos de rua, transeuntes, ambulantes e toda sorte de elementos espúrios da “sociedade organizada”.

Uma performance desse período destacada pelo artista como um momento marcante em sua trajetória é “Caixa-Preta/Tudo azul”. Transcrevo aqui sua fala sobre a obra pois, mesmo longa, é definitiva e apresenta elementos fundamentais de sua trajetória:

“É um trabalho de 1999. Era uma exposição no Paço Imperial e ocupei o espaço lá debaixo. Pensei no título “Caixa-preta/tudo azul”, que eu fui reparar tinha a ver com a catástrofe social brasileira , com o contexto do funk, do tráfico de cocaína, do Brasil e do mundo. Caixa-preta: grande sala, toda forrada de plástico preto, esses plásticos de lona comum, para obra e que serve pra cobrir os “presuntos” também. Toda a sala era coberta por isso. Para chegar nessa grande sala, você tinha que passar por uma outra salinha, também escura, de plástico preto, cheia de sacolas e latas com cola de sapateiro, que a galera da rua costumava inalar . No salão , duas grandes caixas de som tocando uma trilha sonora produzida pelo Paulo Vivacqua, onde tinha Comando Vermelho, as vozes de Hélio Oiticica, Glauber Rocha, funk proibidão e, no final, apesar de ser um loop, uma máquina de lavar. Aí, enfim, entrava o sabão em pó. Na grande sala só havia som e no dia da inauguração, veio uma rapaziada com trezentos quilos de sabão em pó para ser derramado na sala. A caixa preta é o testemunho sonoro-auditivo do acidente. Para mim aquilo era a Caixa-preta da catástrofe social brasileira no final dos anos noventa e eu quis representar isso através do funk. Aliás , representar porra nenhuma. Aquilo aconteceu , e foi o contexto da obra que me fez relacioná-la à catástrofe do país. Eu coloquei os trezentos quilos de sabão em sacos de lixo pretos. Pouco antes da inauguração, já tinham vários amigos presentes. E o Jarbas Lopes começou a chamar a rapaziada da rua, da Praça XV, garotos de rua, engraxates, baleiros, rapaziada dali para o evento. Eles vieram. Naquela caixa-preta, com o sabão em pó e plásticos azuis, íamos transformar o espaço todo preto em todo azul. Mas aí vem o imprevisível. Quando começou a instauração, aqueles trezentos quilos de sabão em pó que estavam em sacos começaram a ser espalhados da seguinte forma: os amigos iam no espaço ao lado onde o sabão estava guardado e iam em direção ao salão. Lá, com uma navalha, eu dava cortes rápidos, fazia fendas e o sabão ia se derramando, formando fileiras. E o pó que deveria ser azul, era branco.A encomenda veio errada . Aí as linhas começaram a formar carreiras gigantescas, como se fossem grandes fileiras de cocaína. Entre os carregadores estavam Manoel Gomes, grande poeta de Niterói , Jarbas Lopes, Tunga, Beto, Justo,vários amigos, pessoas desconhecidas… Todos se dispuseram a carregar aqueles sacos pesados. E o que aconteceu? A grande suspensão desse pó impediu que colocássemos com fitas adesivas os plásticos azuis ; impediu a aderência. A caixa preta não ficou azul. Os moleques jogavam capoeira ao som do funk. Estava chovendo. Nesse meio tempo, o cheiro do sabão, com aquela quantidade de soda cáustica, empesteou o salão e deixou o ambiente irrespirável. E os meninos engraxates, vendedores de bala, etc, naquele momento, tiraram suas camisas, amarraram na cabeça e só deixaram os olhos à mostra, como faziam os bandidos. E a situação ficou muito explícita – e maravilhosa. Sei que no final das contas ficou impossível permanecer no ambiente, o azul não rolou e durante a chuva saí com os garotos pelo pátio do Paço Imperial e de lá para a Praça XV, cheio de vinis azuis, derramando sabão e fazendo espuma pela praça. E assim da “Caixa-Preta/Tudo azul” só ficou a primeira, testemunho do acidente.Outro título possível pra essa obra é o seguinte fragmento de Heráclito: ‘Se todas as coisas se transformassem em fumaça o nariz é que as dinstinguiria’”. (depoimento do artista, 29/08/2016)

Após esse mergulho na performance pública e, de certa forma, na liberação desse lado sombrio, de forças ocultas, máscaras, acidentes e mortos-vivos, Cabelo se debruça sobre a estrutura construtiva dos espaços internos. A descoberta dos panos e bandeiras como suporte de desenho e montagem de labirintos abre uma série de possibilidades para o artista. O bastão de óleo sobre tecido inscrevendo poesias, frases, slogans das ruas e desenhos de seres no limite do demoníaco dá o tom de trabalhos marcantes como Essa é a pele da minha casa; ela é feita de flashes do abismo, sobre o qual a casa é fundada (2001), Mi casa, su casa (2003) e Aventura do peta Edi Simons (2004). São estruturas acolhedoras e, ao mesmo tempo, imponentes em sua economia cromática: pequenas variações de vermelhos, pretos, azuis, amarelo-ouro e branco. Para um carioca, vemos claramente como Cabelo absorve a arquitetura da bricolagem presente nas favelas – não como maneirismo ou representação, mas como leitura estética de um corte e cola que forma as casas populares.

Foi também através das intervenções gráficas em tecidos que o artista desenvolveu seu vocabulário conciso e poderoso de imagens através de desenhos que constroem seres entre o humano e o informe. Se nas instalações citadas acima os panos constroem espaços de acolhimento e tensão, em outras obras eles se transformam em capas, telas, mantos, transparências ou outros tipos de suportes pictóricos. São nesses suportes que Cabelo, ao longo de todos os seus anos, vem desenhando corpos oscilantes entre um sagrado e o demasiado humano. Vemos emergir dentre camuflagens de traços e palavras as imagens poderosas de santos caídos, crianças fumantes, budas sacanas, erês guerrilheiros, entidades feitas de linhas e cores fortes. Esse universo imagético pleno de mistérios, aliás, é um eixo permanentemente presente no trabalho de Cabelo. Vemos seus desdobramentos em obras e instalações como a série dedicada às imagens de meninos-soldados fumantes de Mianmar (antiga Birmânia). Uma imagem poderosa que, desde 2001, percorre diferentes trabalhos e suportes do artista. Podemos vê-la em um trabalho sem título de 2003 (uma espécie de assemblage montada com caixa de papelão, sacos e copos plásticos, lâmpada e outros objetos) e nas várias versões de Mianmar Miroir, feitas em 2005, 2006, 2007 e 2009. A imagem é expandida em fotografia , objetos , desenhos , instalações, performances e vídeos.

Essa simultaneidade de frentes criativas é uma constante no trabalho de Cabelo. Às vezes um tipo de ação ocupa o proscênio – como no caso recente em que o vídeo torna-se a única mídia em exposições como Obrigado, volte sempre (2015). Em geral, porém, elas convivem num jogo em que se esvaziam e se alimentam. Imagem, palavra e som se entrelaçam nos corpos e objetos. Com o passar dos anos, a carreira musical de Cabelo e sua relação com o bando-banda Boato se dispersa em novas frentes sonoras devido à dissolução do grupo. Mesmo assim, o artista permanece até hoje articulando sua criação plástica aos universos sonoros e poéticos. Com um ouvido privilegiado para o que a cidade ouve e canta, Cabelo é um dos poucos artistas que percebeu no funk carioca e nos seus graves plenos de potência sexual e de duplos-sentidos da linguagem uma força estética necessária para dinamizar o meio da arte, geralmente distante e receoso de sua aproximação orgânica e subterrânea com a cultura da favela e das margens. Essa percepção do músico e do artista pode ser vista, por exemplo, nos títulos de seus trabalhos ou na presença do “batidão digital” em performances e obras que ainda hoje percorrem seu repertório – como na exposição multimídia montada ao redor do personagem-alter-ego MC Fininho (2011), ou na exposição Humúsica, montada no MAM-RJ em 2012. Atualmente, essa força também tem raízes nas ações da dupla Rato Branko, formada com Raul Mourão no último ano.

Não há uma única forma de dar conta da trajetória desse artista inventor de mundos, sons, entidades, estados sensoriais, imagens que habitam seu mundo particular. Cabelo é um dínamo cuja criatividade emerge do “acaso disciplinado” ou, dito de outra forma, de uma observação aleatória das coisas do mundo, combinada com um empenho estético que transforma o trivial em potência artística. Sua bricolagem de objetos sobrepostos pode dar forma a totens pagãos, podem formar entidades inesperadas. Seu olho atento de criador de imagens pode recortar o mundo em frames de cores e formas imperceptíveis para os que não se dedicam a observar o oco do mundo em sua beleza e apocalipse. Terra, fogo, mar e ar em ebulição e repouso. Contemplação e destruição em uma arte capaz de retirar de nosso subterrâneo as entranhas da beleza e do caos.