Extensores [A Gentil Carioca]

  • João Modé apresenta Extensores, onde cinco longas cordas se conectam sobre a clarabóia dA Gentil Carioca, atadas a alguns prédios da região do Saara – mercado a céu aberto no centro histórico do Rio de Janeiro – e outras nos arredores com um nó em suspensão. Como um prolongamento espacial do olhar para a vizinhança, a obra ganha uma potência de transpassamento por tensão, que a confere, ainda, a dimensão de trama construída através de um complexo tempo, vital e coletivo.

  • O projeto consiste na instalação de cincos Extensores vindos de diversos prédios da vizinhança [alguns de uma vizinhança bem distante...] se encontrando num único nó sobre a clarabóia da galeria, conectando o espaço interior da galeria a alguns prédios da região do Saara – mercado a céu aberto no centro histórico do Rio de Janeiro – e outros locais nos arredores, com um nó em suspensão.

     

    Os Extensores são, de alguma forma, uma extensão do olhar. Um atravessamento do espaço. Conectam/separam coisas e situações.

     

    Em 2007 cheguei a iniciar o desenvolvimento do projeto – quando realizei A Cabeça, minha primeira exposição na A Gentil Carioca – discutido com alguns responsáveis pelos edifícios do entorno, mas vimos que seria complexo demais para o tempo que tínhamos naquele momento. No mesmo ano idealizei a obra Cinco extensores se encontrando sobre a Gentil, impressão fotográfica e linhas, realizada três anos depois para para exposição Entre Desejos e Utopias.

  • CINCO EXTENSORES SE ENCONTRANDO SOBRE A GENTIL, 2007 impressão fotográfica e linhas 26,8 x 20 x 4 cm

    CINCO EXTENSORES SE ENCONTRANDO SOBRE A GENTIL, 2007

    impressão fotográfica e linhas

    26,8 x 20 x 4 cm

     

     

     

     

     
  • Vale lembrar que a exposição A Cabeça, aconteceu com o espaço expositivo completamente vazio. Apenas três escadas de madeira davam acesso ao sótão do prédio. Ali uma série de objetos foram organizados/desorganizados no espaço com posições definidas e situações instalativas, como um grande peixe que nadava solitário num aquário no fim de um corredor com um emaranhado de madeiras, uma corda de lã que percorria todo o espaço...

     

    Gosto de pensar o sótão como um lugar que tem a mesma planta mas que está numa outra dimensão. Um lugar de memória. As cordas conectadas sobre a galleria, vindas de diversos pontos da cidade, reforçavam esta malha que vamos construindo na nossa vivência.

  • A outra versão dos Extensores ainda não realizada, nasceu no final de 2001, quando participei de uma exposição coletiva Outra Coisa com Brígida Baltar, Eduardo Coimbra, Raul Mourão e Ricardo Basbaum em Vitória, ES, no Museu Vale, onde propus um extensor que viria do morro Mestre Álvaro e adentraria o espaço do museu, mas o projeto ficou inviabilizado já que a distância era de mais de 15 mil metros cruzando áreas urbanas e rurais...

  • Iniciei os Extensores em 2001, numa exposição coletiva com curadoria de Ricardo Basbaum e Miguel Von Perez num galpão à beira do Rio Douro na cidade do Porto. Na época, eu vinha desfiando um veludo e juntando os fios retirados. Fiz uma longa linha que atravessava toda a extensão do espaço e que adentrava uma janela de uma pequena construção do galpão. 

     

    Em 2002 fiz o segundo extensor numa exposição chamada Love’s House que aconteceu num hotel do mesmo nome na Lapa. Cada artista ocupou um quarto, lá eu descasquei as paredes revelando nas camadas anteriores de pintura, a história daquele lugar. Além disto uma corda de algodão e sisal vinda do corredor, adentrava o espaço e fazia um nó numa outra que saia por 100 metros pelo espaço da cidade até um prédio na rua da Lapa, conectando o espaço interno do hotel com o lado de fora, o espaço da rua.

     

    Tem, nos Extensores, uma tensão na corda, que quando você segura nela é como você estivesse no lugar onde ela está amarrada mesmo que você não consiga ver exatamente onde é. É um outro tipo de medição.

  • Nesta mesma época, comecei a trabalhar com fios e foi quando surgiu o projeto REDE.

  • Desde então fiz mais alguns Extensores como o da 28ª Bienal de São Paulo [2008] que ligava uma árvore do parque do Ibirapuera com uma coluna no pavilhão. Gosto de pensar que o prédio recebia as vibrações da árvore e vice-versa. Além disto existia uma conexão do tronco da árvore e suas raízes com as colunas circulares e suas fundações.

  • Na exposição Para o Silêncio das Plantas que aconteceu no verão de 2011 nas Cavalariças da Escola de Artes Visuais do Parque Lage, um grande extensor tinha uma ponta próximo ao portão de entrada no parque amarrada em duas palmeiras. As cordas se juntavam e seguiam em direção ao prédio atravessando-o e seguindo para o espaço da floresta, onde era amarrado na base de uma árvore que não era vista do espaço expositivo [publicação Para o Silencio das Plantas].

  • Na última exposição individual que fiz na galeria A Gentil Carioca [2015], Algumas coisas que estão comigo, também instalei extensores que vinham da obra Galáxia [um agrupamento de pedras semipreciosas]: um que conectava os dois prédios da galeria e outro que ia para o espaço da cidade.

  • abaixo deixo algumas referências de outros trabalhos que dialogam com a proposta:

  • João Modé (Resende, RJ, 1961)

  • Artista brasileiro, vive e trabalha no Rio de Janeiro. Seu trabalho articula-se por uma noção plural de linguagens e espaços de atuação. Desde 2013 vem desenvolvendo um grupo de obras em tecidos que chama ‘Construtivo [Paninho]’. Usando a costura e o bordado, o artista se apropria de panos de cozinha, lençóis e lenços de seu uso cotidiano para construir obras que fazem uma homenagem à tradição geométrica/abstrata da arte brasileira. Uma forma de ‘construtivo-afetivo’. Tem formação em Arquitetura e em Programação Visual, com mestrado em Linguagens Visuais pela UFRJ. Foi membro fundador do grupo Visorama, que promoveu debates acerca das questões da arte contemporânea entre o final dos anos 1980 e a década de 1990.

     

    Em 2019 apresentou uma individual na galeria Peter Kilchmann, em Zurique, Suíça e foi finalista do Prêmio Marcantônio Vilaça, no Museu da FAAP, São Paulo. Em 2018, participou da coletiva 'Las Calanques' no FRAC Marseille, França. Em 2017, participou das exposições “35º Panorama de Arte Brasileira”, no Museu de Arte Moderna MAM-SP em São Paulo, “BAHAR / The Instanbul Off-Site Project for Sharjah Biennial 13” em Abud Efendi, na Turquia, “Presente para Iemanjá” na Casa França-Brasil, Rio de Janeiro. Em 2016, participou da “Trienal de Aichi” em Nagóia, Okazaki e Toyokashi, no Japão, da “Gran Bienal Tropical” em San Juan, Porto Rico, de “Ponto Transição” na Fundição Progresso, Rio de Janeiro e de “A Cor do Brasil” no Museu de Arte do Rio – MAR, Rio de Janeiro. Em 2015, abriu duas exposições individuais, “O passado vem de frente numa brisa” no Museu do Açude, Rio de Janeiro e “Algumas coisas que estão comigo” na galeria A Gentil Carioca, Rio de Janeiro. Em 2014, realizou as individuais “Land, die raum” em Berlim, Alemanha, “Desertão” no CCBN Cariri, em Juazeiro do Norte, Ceará e o Projeto “REDE” no Museu de Arte Contemporânea – MAC Niterói, Rio de Janeiro. Em 2008 participou da 28ª Bienal de São Paulo, entre diversas outras participações em sua trajetória artística.

     

    A obras de João Modé integram coleções como Pinacoteca do Estado de São Paulo, Museu de Arte de São Paulo; Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, e Frac Bretagne, França e também importantes coleções particulares no Brasil e no exterior.