Cibelle Arcanjo

14 Agosto - 9 Outubro 2021 Rio de Janeiro
Apresentação

 

Muvucas

 

A série Evocação da artista Cibelle Arcanjo se acerca de uma muvuca de sementes que se tornam floresta. A muvuca, tecnologia indígena para o plantio de espécies nativas de crescimentos rápido, médio e longo, se faz tendo em vista a pluralidade das plantas, as associações interespecíficas e o exercício dos estados intermediários e da mediação. Na sabedoria da muvuca, é necessário reconhecer a partilha de nutrientes entre distintas espécies, bem como os papéis dos ciclos de morte e de vida de plantas de crescimento médio ou rápido na proteção do solo e no estímulo das plantas de ciclo longo.


Tal qual a muvuca, os estados intermediários e as associações harmônicas “entre-seres” se fazem presentes na produção de Cibelle. Nas obras Sopro, Guardião e Roda, gira, círculo, volta, o corpo é o canal de conexão com as raízes, folhas, seres viventes, entidades, orixás, ar, água, fogo, estrelas e planetas. Tais elementos podem ser entendidos como “o que está ao redor” ou “o ambiente”, mas prefiro trazê-los, provocada pelas imagens, como “o que atravessa” e é “meio inseparável do ser”.


Os ciclos de morte e de vida das plantas, em colaboração, provocam a noção de morte da tradição judaico-cristã. A morte bem vivida pode gerar vida, ser criação. Epá Babá! Em Criação, Cibelle aguça sua fatura tornando-se rendeira. Na tela, a renda se funde com a arquitetura dos morros, as contas ganham vida e a imagem recebe uma luminosidade celestial. Por outro lado, nas obras Dar corpos às nossas lágrimas, deixar fluir o nosso sangue e Colheita na floresta, a artista recusa a obliteração dos ecocídios, genocídios e epistemicídios coloniais. Em Colheita na floresta, a bala disfarçada de semente vem lembrar das falsas promessas de desenvolvimento do agronegócio.


A contrapelo das mono culturas, as telas Busca em sussurros, Sinergia e Cruzeiro do Sul trazem as lições de enxergar no escuro e aprender no silêncio e na dúvida. Com o manejo da saturação digital da cor nas pinturas, Cibelle evoca o mecanismo biológico de adaptação das retinas à luz. Convida, assim, a sensibilizar o olhar; a saber confundir contas com sementes.

 

Joyce Delfim¹, 2021

 

 


 

¹ Pesquisadora, curadora e educadora em arte. Mestre em Estudos Avançados em História da Arte pela Universidade de Salamanca e doutoranda em Artes Visuais pela Universidade Federal da Bahia.

Vistas da exposição
Obras
  • Cibelle Arcanjo, Guardião [Guardian], 2021
    Cibelle Arcanjo, Guardião [Guardian], 2021
  • Cibelle Arcanjo, Busca em sussurros [Searching in whispers], 2021
    Cibelle Arcanjo, Busca em sussurros [Searching in whispers], 2021
  • Cibelle Arcanjo, Roda, gira, círculo, volta [Wheel, spin, circle, round], 2021
    Cibelle Arcanjo, Roda, gira, círculo, volta [Wheel, spin, circle, round], 2021
  • Cibelle Arcanjo, Sopro [Blow], 2021
    Cibelle Arcanjo, Sopro [Blow], 2021
  • Cibelle Arcanjo, Cruzeiro do Sul [Southern Cross], 2021
    Cibelle Arcanjo, Cruzeiro do Sul [Southern Cross], 2021
  • Cibelle Arcanjo, Criação [Creation], 2021
    Cibelle Arcanjo, Criação [Creation], 2021